sumidouro
não se expõe
vez em nunca deixa algum pingo d’água escapar,
é a natureza…
do medo?
de se machucar.
caminha escondido
nas tormentas de si mesmo
mal respira,
corpulento.
sem ruídos,
mansamente,
desgasta por fim
o sólido aparente.
articulações articuladas
transparências
vazio agudo
ando meio
cheio de tudo
paulo leminski
notas sobre um diálogo.
e aceitar que de tudo fica um pouco é a parte mais difícil. essa parte que fica, parte difícil e pouca, ou muita. mas o que fica será tudo ou um pouco? mas se fica, talvez seja bastante pra compor um todo, alguma certeza, ou talvez isso que fica, mesmo significante, não seja suficiente, e vire pouco, perto de um muito. e o medo é agravante…medo de errar, de escolher e errar, e de não ter certeza e errar, e errar na certeza, talvez o pior. e se se deixar sentir não for suficiente? for dual? for complementar? como dividir? esse medo aprisiona, medo de sentir, medo e sentir.
nó (ou engasgando a si mesmo)
medo
laçando-se à
ausência-estima
exalando anciosamente
insegurança
oxidação (ou redução de mim)
inteiro corroendo,
por lágrimas,
virando outro,
corroído.
e agora,
corrosivo,
acaba por se destruir,
por inteiro.
(…) reconheça-se: a maior contribuição de Colombo não foi ter colocado um ovo em pé ou ter aportado por aqui depois de singrar mares nunca dantes navegados. colombo precisa ser lembrado como a pessoa que permitiu a nós, falantes do inglês, do francês ou do português, que tivéssemos contato com uma língua que, do méxico até o extremo sul da américa, é capaz de nos ensinar a dizer “nosotros” em vez de apenas “we”, “nous”, “nós”, afastando a arrogante postura do “nós” de um lado e do “vocês” do outro. pode parecer pouco, mas “nós’ é quase barreira que separa, enquanto “nosotros” exige perceber uma visão de alteridade, isto é, ver o outro como um outro, e não como um estranho. afinal, quem são os outros de nós mesmos? o mesmo que somos para os outros, ou seja, outros!
(Mario Sergio Cortella.Folha de S.Paulo, 9 de outubro de 2003).